Lúcia tinha uma casa impecável
Tudo estava sempre arrumado
Nenhum papel fora de lugar
Nenhum rabisco na parede
Ela se desdobrava em mil para manter tudo perfeito
Se esforçava tanto porque tinha uma voz dentro da sua cabeça martelando sem parar:
“O que vão pensar de você, se sua casa não estiver impecável? “
Uma voz que martelava sempre que estava com dor nas costas, quando estava zero graus, quando estava esgotada.
Quando por um segundo, pensava em ir dormir sem lavar a louça…
Não importa, a voz a lembrava da coisa mais importante acima de qualquer vontade própria:
“O que vão pensar de mim….”

Quando o filho da capital vinha com os netos, ficava dias para preparar a casa e mostrar o quanto era perfeita.
Mandava trocar as capas das almofadas.
Comprava roupas de cama.
Mandava limpar os vidros, aparar a grama, arrumar tudo que estava quebrado, lavava as cortinas,
preparava comida para a semana.
E sentia um prazer incalculável, ao mostrar sua casa cheirosa, limpa, sem nenhum defeito ou falha.
Nenhuma sujeira que pudesse transparecer imperfeição.
Ao mesmo tempo, sentia um terror absoluto ao ver os netos correndo pela casa, colocando as mãos sujas na mesa de vidro, riscando o chão com patins….
Sem nem perceber, a organização era muito mais importante, do que o barulho, as músicas e a alegria das crianças.
Não conseguia sorrir para eles, nem se sentir confortável.
Só desejava que os dias passassem rápido e os netos fossem embora logo.
Neto bom para Lúcia, era por foto no WhatsApp.
As fotos, ela mostrava para as vizinhas, as amigas e se enchia de orgulho para contar como eram bonitos e inteligentes.
Ali, ao vivo, a bagunça e barulho tiravam sua paz.
A paz de ter sua casa sempre perfeita, limpa, organizada, de se sentir no controle da situação e consequentemente, no controle de sua vida.
Um belo dia, Lúcia já tinha feito o jantar, sua cozinha estava brilhando como sempre.
Ela já estava cansada e deixou cair a vasilha de feijão no chão branco de porcelanato.
A vasilha de vidro espatifou cacos para todo lado.
E parece que uma bomba de feijão tinha explodido ali, lançando estilhaços nos armários, geladeira, embaixo do fogão.
Mais que depressa, a voz dentro da sua cabeça já mandou limpar tudo.
” Limpe e deixe tudo impecável como sempre, não deixe ninguém perceber que cometeu um erro !”
Lúcia teve vontade de chorar. De repente, uma voz que ela nunca ouviu na vida, sussurou em seu ouvido…
‘Deixe para amanhã! “
Assustada, Lúcia, parou por um segundo…
Já era tarde da noite e ela achou que estava tendo uma alucinação.
Do nada, outro sussuro…
“Tudo bem não ser perfeita. Ninguém é. Você já fez bastante hoje. Amanhã, o feijão e os cacos estarão aqui.”
Lúcia, largou a vassoura e o pano, foi ao seu quarto, tomou um banho quente.
Passou um creme cheiroso, deitou na cama e acreditem, dormiu.
Acordou cedo, descansada, foi à cozinha e viu o que tinha feito…
Olhou aquela baderna e sentiu um aperto no coração.
Mas logo o aperto deu lugar a algo que nunca tinha sentido…
Alívio.
Alívio pelo caos ali instalado na sua preciosa cozinha.
Estava tudo imundo e mesmo assim, ela continuava sendo ela mesma.
A Globo, nem a CNN estavam lá para mostrar sua cozinha suja.
Ninguém estava nem aí.
Parou , deu um sorriso, fez um café, comeu umas torradas, escutou as notícias…
Daí sim, pegou a vassoura e foi limpar o estrago.
Depois desse dia, começou a prestar atenção no quanto sacrificava sua vida controlando a limpeza.
Pensou na voz que sempre ouvia … .e se deu conta…
Era a voz de sua mãe.
Sua mãe também tinha essa voz dentro dela.
Que era de sua avó.
Lúcia não queria deixar essa voz de herança para seu filho, nem seus netos.
E sim, ela continuava apreciando a paz de uma casa organizada.
Mas começou a curtir a bagunça e o barulho de seus netos também.
E invés de plantar uma voz de comando, de perfeição neles.
Ela começou a rir de suas invenções, elogiar seus desenhos, aplaudir suas acrobacias no sofá….
Seu filho ao perceber a fisionomia da mãe mais leve a abraçou:
” Mãe, que bom que deixou de ouvir essa voz.
Eu também ouvia…mas quando os meninos nasceram, vi que precisava calar essa voz senão eu nunca conseguiria ouvir meus filhos.
Às vezes, quando a bagunça e gritaria me deixa nervoso, me lembro de como você brigando quando eramos crianças, de como era triste ver você sempre nervosa, sempre exigindo o máximo de si mesma e de nós….
mas a única coisa que eu queria era que me entendesse…me aceitasse como eu era…eu não queria que meus filhos se sentissem um peso como eu me sentia!
Esperei 47 anos pra finalmente poder ver você calar essa voz…e se sentir livre para ser imperfeita.
E permitir que seus netos sejem livres tbem…”
