Sílvia

Silvia por muitos anos perseguiu seu sonho de se tornar uma mulher bem sucedida. 
Ter sua casa em um condomínio fechado.
Ser admirada e respeitada.  

E conseguiu. 

Só que ninguém nunca lhe contou. 
Que não poderia ter tudo. 
Existia um preço alto para sua ambição.
Que ela nunca imaginava que ia ter que pagar…


Silvia cresceu vendo seus pais passando por muitas dificuldades. 
Eles tinham um mercado de bairro que a uma certa altura estava bem e prosperando. 
Mas seus pais nunca souberam lidar bem com dinheiro. 
Se afundaram em dívidas e perderam tudo. 
A família teve que voltar para a cidade de interior onde sua avó morava.
Viviam de favor  em uma casa simples no fundo do terreno da avó.  
Seus pais se tornaram amargurados, inconformados com a situação.  
Ela passou sua adolescência entre brigas, muita bebida e acusações. 

Na primeira oportunidade que teve, voltou para a capital. 
Foi morar com uma amiga e começou como auxiliar de escritório de uma grande empresa de seguros. 
Passou por muito aperto, trabalhava e estudava a noite, fazia bicos nos finais de semana. 
Cada gota de suor e lágrimas pensava na casa dos pais, pra onde jurou nunca mais voltar. 
Seus pais a ensinaram que a única felicidade da vida era ter dinheiro, conforto, uma casa grande…

Era seu único objetivo. 

Juntou cada centavo que ganhou enquanto as amigas compravam roupas e iam para as baladas. 
Dava seu sangue na empresa.
Não demorou para ser promovida.
Começou a namorar na faculdade, mas sempre deixou claro que o trabalho vinha em primeiro lugar. 
E continuou afirmando a mesma coisa quando Danilo a pediu em casamento. 
Depois de 2 anos,  Silvia descobriu que estava grávida bem na época que seu marido perdeu o emprego. 
Tiveram que adiar os planos de se mudarem para um apartamento maior. 
Silvia prometeu a sua gerente que trabalharia online durante toda sua licença maternidade e que não deixaria de cumprir suas metas. 

E assim o fez. 

Danilo conseguiu um trabalho home office  e ajudava muito com o bebê.  
Na verdade, ele sempre assumiu mais responsabilidades com  Lucas do que a própria mãe.  

O tempo passou em um piscar de olhos. 

Lucas agora tem 14 anos. 
Silvia se tornou gerente regional e isso triplicou seu trabalho e responsabilidades. 
Danilo ficou sócio da empresa de logística em transportes e ainda conseguia ficar bastante em casa e dar suporte ao filho. 
Eles se mudaram para a tão sonhada casa em condomínio luxuoso. 
Tudo parecia perfeito. 
As fotos da família em seu feed eram como as de comercial de margarina. 
Seu perfil nas redes mostrava uma mulher elegante, trabalhadora, poderosa e realizada. 
Durante todos aqueles anos, viveu obstinada. 
Agora, finalmente colhia os frutos mas 

Estava prestes a se deparar com o ônus de sua obstinação.  

Danilo sempre que conversava com a esposa sobre Lucas e mostrava preocupação com seu comportamento muito quieto e fechado, ouvia que deveria marcar uma terapia ou levar ao médico.  

“ É fase, logo passa…” 

Um dia foi pedir para o menino sair do notebook. 
Já era 1h da manhã e começaram a discutir. 
Lucas levantou o braço para o pai, Danilo o agarrou pelo punho. 
O pai então levou um susto. 
O pulso do menino estava cheio de marcas
Danilo não podia acreditar que eram marcas de corte. 
Foi pra cima de Lucas e puxou o moletom do outro braço.  
Mais marcas, várias,  todas parecidas. 

“ Lucas, o quê é isso? O quê são essas marcas?” 

“ Nada pai, eu cai…só isso” 

Danilo respirou fundo e tentou se acalmar. 

“ Eu não sou imbecil menino.  Isso é um corte. Não tem como fazer isso caindo” 

“ Me deixa em paz! Sai do meu quarto” 

Danilo começou a revirar as gavetas do menino. 
Abriu sua mochila, tirou tudo de dentro. 
Enquanto Lucas xingava e mandava o pai parar. 
Abriu seu armário e jogou suas roupas no chão.  
No fundo encontrou um estilete. 

“ Foi com isso? Me responde moleque. Foi isso aqui seu acidente? “ 

Lucas estava morrendo de ódio do pai e gritou: 

“ Sim!Tá feliz agora? “ 

Danilo não sabia o quê dizer, saiu. 
Sentou na beirada da sua cama e ficou imóvel por uns 30 minutos. 
Sentou no corredor na porta do quarto do filho e ouviu quando ele desligou o notebook e se deitou. 
Esperou uma meia hora e abriu a porta. 
Deixou aberta e ficou ali no chão,  olhando Lucas dormir. 
Se lembrou de quando tinha 4 anos e insistia em usar a fantasia do  homem aranha em todo lugar. 
Seus olhos encheram de lágrimas,  tentou segurar mas colocou a cabeça entre as pernas e não conseguiu conter o choro. 

Eu falhei com você,  meu filho.” 

Silvia chegou às 6h de uma viagem e encontrou o marido dormindo no corredor. 
Conversaram e decidiram ligar logo cedo para o psiquiatra. 
Cancelou suas reuniões e avisou que não iria trabalhar. 
Renata, a psicóloga de Lucas quando soube do ocorrido,  ligou logo cedo para Danilo.  
E recomendou que o menino ficasse sob supervisão.  
Renata recomendou que Silvia ficasse por perto mas sem ser invasiva.
Lucas precisava sentir que a mãe estava ali. 

“ A psicóloga disse  pra eu ficar por perto. 
Mas não entendi por quê “ 

Danilo olhou para a esposa e cruzou os braços. 

“ Pensa um pouquinho, Silvia, talvez se sair da sua bolha consiga enxergar que nossa família não é tão perfeita como você quer tanto mostrar.” 

“ Eu sei, nunca fui muito presente. 
Mas eu gosto de dinheiro Danilo e num cai do céu sabia?
 Essa casa, o carro, foi pago com o quê?” 

“ Pois se seu filho morrer, venda tudo e compre outro então “ 

Danilo soltou a bomba e saiu batendo a porta. 
Silvia saiu correndo atrás gritando, histérica. 

“ O quê você quer que eu diga? 
Sim!!
Eu fui uma péssima mãe ok? 
Pronto, ta feliz? 
Eu só queria dar a ele tudo que eu não tive. 
Não queria nunca que ele visse seus pais brigarem por centavos.
Que ele visse nós dois enchendo a cara pra esquecer que moravam num barraco. 
Eu ralei desde os 18 anos pra ter tudo que eu tenho. 
Nunca parei, nem grávida,  nem cheia de ponto da cesarea…
Eu não fui na apresentação da escola,  não vi meu filho ganhar medalha na natação,  não fui junto quando quebrou um dente…
Mas quer saber? 
Eu não me arrependo ta!! 
Porque ele nunca vai passar pela humilhação que eu passei. 
Eu fiz o que achei certo Danilo.” 

Silvia gritava a plenos pulmões.  
O sangue subia pelo rosto. 
Danilo olhou sereno para a esposa: 

“ Tá e por que está tão nervosa então…
Se está feliz com suas escolhas, por quê está se defendendo desse jeito? “ 

“ Porque você disse pra eu vender tudo e comprar um filho como se eu não soubesse que não tem como…” 

“ Pois é,  querida, tudo tem um preço.  
Eu casei com você sabendo que era desse jeito e que não ia sossegar até ter tudo que queria. 
Por isso nunca te cobrei. 
E eu sempre gostei de cuidar do nosso filho. 
Eu vi ele crescer. Curti. Brinquei. 
Eu acreditava que meu amor por ele era suficiente. 
Que como ele não tinha o seu, eu precisava me desdobrar pra preencher. 
Mas não dá.  
Pai e mãe são duas peças separadas. 
São dois cuidados diferentes. 
E eu descobri isso quando a Renata veio me dizer que o Lucas não se sentia digno de atenção.  
Eu fiquei com raiva. 
A minha atenção não bastava. 
Ele precisava da sua. 
Porque pior que não ter mãe,  Silvia, é ter uma que não te dá um pingo de atenção.  
Eu pensei em me separar,  sabe. 
Levar ele pra longe. 
Pra ele não ter que conviver com uma mãe totalmente ausente. 
Mas eu entendi que a ferida ia continuar ali
Longe ou perto, nada poderia convencer o Lucas
Que ele valia o tempo da mãe.
É um vazio que nada pode preencher.” 

Silvia ficou sem palavras. 
Danilo aproveitou e colocou tudo pra fora: 

“ Já que estamos colocando as cartas na mesa 
Deixa te falar…
Meus pais não eram ricos também.  
Morei no sítio quase até a adolescência.  
Mas fui muito feliz. 
Meu pai me ensinou a pescar, a caçar passarinho, subir na árvore  ..
Minha mãe cozinhava, cuidava da casa, sentava pra contar histórias.  

Toda noite,  mesmo se fosse só feijão e farofa, minha mãe fazia a gente sentar na mesa e agradecer. 
Eu entendo você Silvia, já fui ganancioso também.  
Lutei junto com você para comprar essa casa. 
Mas desde que a Renata me falou isso do Lucas. 
Fiquei pensando que eu não tive nada que ele tem.
Mas era tão feliz. 
Porque eu me sentia importante naquela casa. 
Meus pais dedicaram tempo pra mim. 
Mesmo trabalhando muito. 
Então , sinto te dizer.
O problema na sua casa não era a falta de dinheiro. 
Era o apego que seus pais tinham de tudo que perderam. 
Nós dois tivemos uma infância pobre. 
Mas eu não me sentia humilhado e você sim. 
Porque o dinheiro era o centro da vida da sua família
O da minha não era. 
Sinceramente Silvia, fazem 3 anos que nos mudamos pra cá 
E você não diminuiu o trabalho nem um pouco 
Nada é o suficiente pra você.
Essa ferida aí nunca vai fechar.
Você pode estar coberta de ouro 
E mesmo assim, vai se sentir a menina
Que ficava encolhida no quarto ouvindo os pais brigarem por dinheiro.
A mesma ferida de solidão que seu filho
Vai carregar pra sempre “ 

Silvia se retraiu. 
Sentou no sofá e olhou para o nada.
Ficou sem saber o que dizer. 
Com aquelas palavras, Danilo percebeu que sua esposa não tinha culpa. 
Ela cresceu acreditando que o dinheiro resolvia tudo. 
Sofreu muito e guardava muita mágoa


“ Eu não sei por onde começar,  Danilo…” 

“ Pense, você é inteligente, vai encontrar um jeito! ” 

Silvia acordou no dia seguinte ainda com dor de cabeça. 
Desde os 18 anos só teve um único desejo: trabalhar muito e ganhar dinheiro. 
Não sabia como ser mãe.
Foi procurar algo confortável para vestir no seu closet imenso. 
Achou uma caixa com coisas antigas. 
Eram de Lucas, fotos, desenhos de quando era pequeno
Tinha uma medalha feita de papel escrito:  melhor mãe do mundo! 
E um caderno velho com anotações.

05/junho
Mãe,  hoje fiz um gol. 

12/ agosto
Mãe,  papai fez macarrão.  

7 de novembro 
Mãe,  queria te mostrar minha fantasia. 

24 de maio
Mãe,  eu fiz ferida, cai na calçada…


Danilo viu Silvia com o caderno antigo: 

“ Comprei esse caderno  pro Lucas porque ele sempre queria te esperar acordado. 
Pra te contar do dia. 
Acho que ele tinha 7 ou 8 anos. 
Daí eu dizia pra ele escrever, que você ia olhar depois.  
Eu deixava sempre na sua cabeceira mas acho que nunca leu não é?” 

Silvia abaixou o rosto e cobriu com as mãos envergonhada e começou a chorar. 

“ O que me custava chegar um dia só mais cedo, Danilo? 
O quê me custava ter deixado um recado aqui nesse caderno pra ele? 
Ele sentia minha falta …
Eu sentia falta dele também.  
Meu Deus, como eu sentia falta do meu filho mas nunca quis admitir.” 

Silvia começou a cair em si. 
E foi doloroso demais se enxergar com tanta honestidade. 
Quis tanto alcançar seus objetivos e passou por cima de tudo. 
Inclusive do seu amor pelo filho. 
Respirou fundo, pensou bem e tomou uma decisão.  

Pegou uma caneta e escreveu no caderno:

27/ junho


Lucas, eu também sinto sua falta. 
Eu senti sua falta todos os dias. 
Mas não queria mostrar. 
Porque eu achava que se mostrasse
Teria que abrir mão dos meus objetivos.
Espero que um dia entenda 
Que nunca quis causar mal a você.  
Eu fiz tudo pensando no seu bem. 
Mas eu estava errada. 
Eu errei. 
E espero que me perdoe um dia. 
Daqui pra frente eu estarei aqui todos os dias. 
Eu vou esquentar seu leite.
Eu vou te levar na escola. 
Vou te buscar. 
Você não precisa falar comigo se não quiser
Eu só quero que você saiba: 
Eu vou estar aqui porque você sempre foi a coisa mais importante pra mim.
E só demorei pra enxergar. 



Sílvia fechou o caderno. 
Sabia que levaria um bom tempo para reconquistar a confiança do filho.

Mas pela primeira vez 
Não estava com pressa.
Sentia pela primeira vez a certeza

de que começaria a lutar

pela sua verdadeira riqueza…

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